


Como a terapia junguiana pode ajudar na Despersonalização
2 de janeiro de 2025A psicanálise, desde Freud, propõe uma abordagem que busca desvendar os mecanismos inconscientes que regem o comportamento humano. Ela parte do princípio de que o sofrimento psíquico está ligado a conflitos internos, muitas vezes inconscientes, e que a cura passa pela elaboração desses conflitos através da fala e da relação terapêutica. A psicanálise não oferece respostas prontas, mas sim um espaço para que o sujeito encontre suas próprias respostas.
A religião, por outro lado, opera em um campo de crenças e dogmas. Ela oferece um sistema de valores e normas que orientam a vida dos fiéis, muitas vezes com respostas claras e definitivas para questões existenciais. A religião institucional pode ser uma fonte de conforto e sentido, mas não costuma ser um espaço de questionamento sobre as estruturas psíquicas.
A tentativa de fundir esses dois campos pode gerar tensões. Enquanto a psicanálise busca a autonomia do sujeito, a religião tende à heteronomia, ou seja, à submissão a uma autoridade externa (Deus, textos sagrados, líderes religiosos). Essa diferença fundamental coloca em xeque a compatibilidade entre os dois campos.
A "psicanálise cristã" e a mercantilização da fé
A crítica de que a "psicanálise cristã" é uma forma de mercantilização da fé e do sofrimento psíquico tem fundamento. Vivemos em uma sociedade onde o mercado invade praticamente todos os aspectos da vida, incluindo a espiritualidade e a saúde mental. A oferta de "soluções rápidas" para problemas complexos é uma característica marcante desse fenômeno.
No caso da "psicanálise cristã", há uma promessa de alívio através da fé, o que pode ser atraente para pessoas em situação de vulnerabilidade emocional. No entanto, essa abordagem negligencia a complexidade do sofrimento psíquico, reduzindo-o a uma questão de falta de fé ou de desvio moral. Isso não apenas simplifica questões profundas, mas também pode gerar culpa e mais sofrimento para aqueles que não encontram alívio através dessas práticas.
A Precariedade e a prática da "Psicanálise Cristã"
Em cidades pequenas e afastadas dos grandes centros urbanos, a precarização dos serviços de saúde mental cria um terreno fértil para o crescimento de práticas como a "psicanálise cristã". Com a ausência de psicólogos, psiquiatras e clínicas especializadas, muitas pessoas se veem diante de uma escolha limitada: ou recorrem a soluções informais e não regulamentadas, ou enfrentam sozinhas seus problemas emocionais.
A "psicanálise cristã" surge nesse contexto como uma alternativa aparentemente acessível e familiar. Em locais onde as igrejas neopentecostais têm forte influência, a ideia de unir fé e terapia soa mais atraente do que buscar ajuda em métodos tradicionais, muitas vezes vistos com desconfiança. No entanto, essa prática não apenas carece de base científica, como também pode agravar o sofrimento psíquico ao reduzir questões complexas a uma questão de falta de fé ou de esforço individual.
A falta de regulamentação e de fiscalização permite que "psicanalistas cristãos" sem formação adequada atendam pessoas emocionalmente vulneráveis, muitas vezes oferecendo conselhos morais disfarçados de terapia. Em um contexto onde o Estado falha em fornecer serviços básicos de saúde mental, a mercantilização da fé e do sofrimento se torna mais uma expressão das desigualdades que marcam o Brasil.
Falta de informação e desinformação: alimentando a precariedade
A precarização nas cidades do interior não se limita à falta de serviços de saúde mental; ela também é alimentada pela falta de informação e pela desinformação. Muitas pessoas não têm acesso a informações claras sobre o que constitui um tratamento psicológico adequado, o que abre espaço para práticas como a "psicanálise cristã" se apresentarem como soluções válidas.
Além disso, a desinformação é amplificada por discursos que associam a psicologia tradicional a ideias "ateias" ou "contrárias à fé", criando uma falsa dicotomia entre ciência e religião. Essa narrativa é especialmente eficaz em comunidades onde a religião desempenha um papel central na vida das pessoas. A "psicanálise cristã" se aproveita dessa desinformação, vendendo-se como uma alternativa "espiritualmente alinhada" e, portanto, mais segura ou confiável.
No entanto, essa prática não pode ser vista como inofensiva. Ao oferecer respostas simplistas para problemas complexos, a "psicanálise cristã" não apenas falha em tratar o sofrimento psíquico, mas também pode causar danos reais. Por exemplo, ao atribuir problemas como depressão ou ansiedade à "falta de fé" ou a "pecados não confessados", ela pode gerar sentimentos de culpa e vergonha, agravando o estado emocional das pessoas.
Regulamentação e formação profissional
Outro ponto crítico é a falta de regulamentação e formação adequada para os chamados "psicanalistas cristãos". A psicanálise tradicional exige anos de formação, análise pessoal e supervisão clínica. Já a "psicanálise cristã" muitas vezes é oferecida por pessoas sem formação adequada, o que pode levar a intervenções inadequadas e até prejudiciais.
A falta de critérios rigorosos abre espaço para charlatanismo e para a exploração de pessoas em situação de vulnerabilidade. Isso é particularmente preocupante em um contexto onde a saúde mental é cada vez mais valorizada, mas também cada vez mais mercantilizada.
Fé como recurso psíquico vs. fé como produto
A fé tem um papel fundamental na vida de muitas pessoas. Ela pode ser um recurso psíquico valioso, uma fonte de sentido e conforto emocional. Mas ela não substitui um processo terapêutico legítimo.
Quando a religião se torna um produto no mercado terapêutico, ela se esvazia de sua profundidade e se transforma em um serviço pago que promete conforto emocional sob um rótulo enganoso. A fé é vendida como um mecanismo de ajuste psicológico, algo que, por um valor acessível, pode resolver a vida do cliente. Isso não é psicanálise – e também não é religião no sentido mais profundo do termo.
Ações necessárias
Se o objetivo é oferecer aconselhamento cristão, é importante que isso seja feito de forma clara e transparente, sem confundir o público com rótulos enganosos. Existem abordagens de aconselhamento pastoral e terapia religiosa que podem ser úteis para pessoas que desejam integrar sua fé ao processo de cuidado emocional. No entanto, essas práticas devem ser claramente diferenciadas da psicanálise e de outras formas de psicoterapia.
Por outro lado, se o objetivo é oferecer psicanálise, é essencial respeitar o método e a ética psicanalítica, que inclui a neutralidade do analista e a valorização da autonomia do sujeito. A introdução de dogmas religiosos no setting analítico pode comprometer esse processo e gerar mais confusão do que alívio.
Conclusão
A "psicanálise cristã" é um fenômeno complexo que reflete as tensões entre religião, psicologia e mercado. Enquanto a psicanálise busca a autonomia e a elaboração do sofrimento psíquico, a religião oferece um sistema de crenças e normas que pode ser reconfortante, mas também limitante. A tentativa de fundir esses dois campos pode resultar em uma prática que não é nem psicanálise nem religião, mas sim uma forma de aconselhamento moral disfarçado de prática clínica.
A crítica à "psicanálise cristã" nos convida a refletir sobre os limites e as possibilidades da interseção entre religião e psicologia, e sobre a importância de manter o rigor ético e metodológico em qualquer prática que se proponha a cuidar da saúde mental. A precarização dos serviços de saúde mental, especialmente em cidades pequenas, só reforça a necessidade de políticas públicas que garantam acesso a tratamentos adequados e combatam as desigualdades que alimentam o sofrimento psíquico. Além disso, é crucial enfrentar a falta de informação e a desinformação, que alimentam práticas enganosas e potencialmente prejudiciais. A "psicanálise cristã" não pode ser vista como inofensiva: ela é um sintoma de um problema maior, que exige atenção e ação.
Texto de FERNANDA VISCARDI - Psicoteraputa de abordagem junguiana - Especialista pelo IJEP/SP
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